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Lc 23, 35-43

35A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

36Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

37Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

38Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.

39Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

40Mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício?

41Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum.

42E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

43Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.


HOMILIA NA SOLENIDADE DE CRISTO REI DO UNIVERSO

Meus queridos irmãos e irmãs, a solenidade de hoje, assim intitulada Jesus
Cristo Rei do Universo, coroa um tempo na nossa liturgia. A reforma litúrgica quis, a
partir do Concílio Vaticano II, que o momento preciso para celebrar essa solenidade
fosse justamente ao final litúrgico. Por isso temos a oportunidade de celebrar essa
liturgia numa comunhão profunda e especialmente centrada na palavra de Deus que
acabou de ser proclamada a todos nós.
Como sempre, nas grandes solenidades e nos finais de semana, temos a
disposição 4 leituras, cada uma delas com a sua particularidade e nos ajudando a
compreender o mistério central da nossa fé.
Por isso gostaria de convidá-los para que, por meio da palavra, também
pudéssemos ter a oportunidade de, quem sabe, pintarmos uma tela, ou termos à nossa
disposição uma tela em branco, e pouco a pouco vamos colocando alguns elementos
bem importantes contidos hoje na palavra de Deus.
A primeira parte e central dessa tela contém o evangelho de São Lucas. A
narrativa do momento em que Cristo padeceu a morte na cruz, esse mesmo evangelho
foi lido já este ano, precisamente quando estávamos na semana santa, lembrando a
perspectiva que São Lucas adotou para falar do mistério da cruz do Senhor.
Coloquemos então, em nossa tela, o evangelho de São Lucas, especialmente este
momento.
De um lado da tela poderíamos pensar agora, a respeito da primeira leitura, a
unção de Davi como rei. Coloquemos então essa imagem belíssima do livro de Samuel,
unção de Davi como rei. Do outro lado vamos colocar a segunda leitura, leitura que
ouvimos da Carta de São Paulo aos Colossenses, um dos hinos cristológicos mais
profundos que existe na sagrada escritura.
Agora vamos aprofundar cada uma dessas partes, tomemos aquilo que é central,
o evangelho de Lucas e o momento em que contemplamos a cruz de Cristo. Logo
perceberemos que a festa de hoje, de Cristo enquanto rei, está muito centrada no
mistério da cruz. Jesus, o nosso rei, jamais quis uma coroa humana e também jamais
quis dominar sobre os reinados neste mundo. Ele sabia que as formas de reinado
passariam, não temos quase nenhuma, talvez uma simbólica de uma rainha que
acompanha tanto tempo, mas os reis já não existem. E por isso Jesus não está ligado a
uma monarquia humana, de um reinado deste mundo, o reino de Cristo é o reino dos
céus.
Toda a imagem que passa por essa tela está no Cristo no mistério de sua cruz.
Mas tudo dominado por Jesus que é rei de todo o universo. E a cruz de Cristo, o que
manifesta para nós? Manifesta a sua realeza. A cruz de Cristo manifesta a imagem que
muitas vezes está impregnada em nossos corações, aquela imagem primeira de um dos
que zombavam de Jesus e diziam: se és o rei dos judeus salva-te a ti mesmo. De fato,
muitos na história humana ainda não encontraram razão em Cristo Jesus, até veem um
pouco o sinal na Cruz de Cristo, mas continuam a zombar deste mistério central.
Contudo, numa outra proporção, e numa atitude completamente oposta destes
primeiros, há uma postura que chama a atenção, de um dos ladrões, que diante do Cristo
reconhece estar defronte a um rei. Essa postura vivida pelo ladrão arrependido é uma
atitude que somos convidados a olhar, diz ele: “Jesus, lembra-te de mim quando
entrardes no teu reinado”. O próprio evangelista nos convida a perceber que, na imagem

do ladrão arrependido, há um reconhecimento de alguém que vê no Cristo um sinal de
salvação. São Cirilo de Jerusalém, padre da Igreja na antiguidade, diz o seguinte: “ver o
Cristo crucificado e declará-lo rei, significa dizer que crê pela fé que Ele pode dar a
salvação”. É uma bela expressão de São Cirilo, porque à medida que alguém ou este
ladrão, declara Cristo como rei e senhor, está cultivando uma atitude muito importante,
atitude de fé. Crê que aquele momento da cruz é um momento também de glorificação
ele diz: “quando entrardes no teu reinado”. E o que Jesus responde? A resposta que vem
do coração de Cristo, carregada de um simbolismo tão grande, salvífico, que acalenta o
nosso coração tantas vezes perturbado pelas inquietações e quem sabe, blasfêmias
contra o Senhor. Cristo responde: “em verdade te digo, ainda hoje estarás comigo no
paraíso”. Esta verdade proclamada por Jesus dá a certeza de que a cruz é uma cruz
gloriosa, e aquele momento resplandece e abre o caminho para o céu. É isso que somos
convidados a contemplar em cada um dos evangelhos, cada um ao seu modo, procurou
também delinear nas suas linhas condutoras como de fato foi a crucificação. São Lucas
dá esses detalhes e nos ajuda a compreender e a dar um sentido e uma perspicácia maior
nessa tela.
Vale a pena lembrar o que São João fala deste momento na cruz: do coração
aberto de Cristo brotou sangue e água. Há a expressão e o nascimento da Igreja de
Cristo, abre-se o céu, mas também a pertença a Cristo e a Igreja, e a cruz se torna um
grande sinal. O sinal principal da cruz é o Cristo que se fez homem, que se tornou servo
de Deus, obediente até a morte. E qual foi a obediência de Cristo? A obediência Dele
está expressada no serviço daqueles que mais precisam.
Por isso a cruz sempre estará constituída por duas hastes: uma delas aponta para
o paraíso, para o céu e encontra-se ligada a história e condição humana; na haste
horizontal mostra o Cristo de braços abertos, nos servindo e servindo à humanidade; e
neste sinal, encontramos o grande sinal da nossa salvação.
Voltemos agora, de forma bem breve, a um dos lados desta tela que estamos
pintando, e pensemos um pouco na unção de Davi como rei de Israel e como está
intimamente ligada ao novo rei de Israel que é o Cristo. Os que compunham a história
de Israel, os assim chamados chefes ou como nos diz o texto, aqueles que queriam
reconhecer a Davi como rei de Israel, foram até ele: “aqui estamos, somos teus, somos
teus ossos e tua carne, tempos atrás era Saul que o nosso rei, mas agora, Deus está
dizendo para nós que tu serás um grande rei”, e Davi se tornou um sinal entre as várias
tribos de Israel.
É interessante perceber este caráter muito específico desta tela que estamos
pintando, pois, a comunhão daqueles que eram chefes em Israel com Davi, é a mesma
comunhão que precisamos ter com Cristo. Uma vez que Ele mesmo foi ungido com
óleo de exultação, uma vez que Ele derramou sangue por cada um de nós, e esta foi a
sua principal unção, uma vez que a nossa comunhão realmente estabelecida com Ele se
dará no momento em que vivermos a unção recebida no santo batismo.
Eis o protagonismo dos cristãos leigos e leigas. Não só o protagonismo daqueles
que são ungidos para uma missão específica como consagrados e consagradas, mas, a
missão de vocês também é uma unção ungida desde o batismo e ungida pelo sangue do
Cristo que foi derramado por toda a terra. É isto que expressa nossa comunhão.
Hoje somos muito mais do que alguns chefes de tribos que foram até Davi e o
reconheceram como rei, somos muitos e estamos aqui diante do Cristo e queremos dizer
que Ele que é nosso rei, e será o rei do universo para sempre.

Pintada essa parte da tela vamos para a outra. Chegamos à terceira parte, o cerne
de tudo é o hino cristológico. Este hino é belíssimo, expressa em primeiro lugar um
primeiro momento de ação de graças. Quero convidá-los a isso, uma ação de graças,
pois a pintura do Cristo, do servo do Senhor, está num momento de alegria, “com
alegria dai graças ao Pai porque Ele vos tornou capazes de participar da luz”. Deus vos
tornou capazes de participar da herança dos santos, e que belo momento para nós, de
ação de graças, porque podemos agradecer, pois fazemos parte da herança dos justos,
dos santos, daqueles que participam na luz.
Mas o hino, continua a dizer num movimento muito preciso, reconhece que
Jesus é a imagem visível de Deus. Jesus é a imagem daquele que nos criou, e Jesus é a
imagem daquele que nos remiu. Portanto, a remissão dos pecados se encontra neste
hino, se Ele é princípio e fim, o Cristo, é aquele que nos reconcilia com o Pai, e a
melhor imagem da reconciliação está justamente neste momento em que contemplamos
a cruz de Cristo.
Esta tela já tomou uma proporção bem bonita, mas coloquemos um detalhe final,
que está contido no nosso salmo, composto num dado momento da história dos hinos de
ação de graças. Quando falamos deste momento e deste salmo, logo voltamos a nossa
atenção para um cântico cantado pelos hebreus quando chegavam a Jerusalém: “quanta
alegria, quanta felicidade, vamos para a casa do Senhor”.
De fato, a alegria faz parte de tudo que estamos celebrando hoje na solenidade
de Cristo Rei, alegria até mesmo do Natal. Por isso temos sinal do natal na parte
externa deste santuário, alegria do natal que vamos celebrar daqui um mês, mas que já
antecipamos hoje, porque Cristo nasceu, morreu e ressuscitou por cada um de nós. Esta
alegria nos enche de duas posturas importantes: a alegria causa em nós um silêncio
muito grande e, sobretudo, uma atitude daqueles que experimentam a paz.
Há algo que está presente tanto no nascimento de Cristo quanto na sua cruz, o
silêncio e a paz. Precisamos cultivar essas duas atitudes, como um modo de estabelecer
verdadeira alegria com Cristo. Ee se muitos, na tradição de Israel, chegavam a porta e
diziam a expressão tão conhecida, o Shalom, como uma vivência da paz, também
podemos repetir: quanta alegria, quanta felicidade, não estamos a porta da casa do
Senhor, estamos na casa do Senhor. E aqui queremos experimentar alegria, queremos
experimentar o dom da paz, o dom do silêncio.
Com alegria, silêncio e paz, o quadro está formado, basta seguirmos a nossa vida
e deste modo fazendo parte de todo esse corpo eclesial viveremos a missão como verdadeiros batizados.

Escrito por: PE. MAURÍCIO