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HOMILIA NO 24° DOMINGO DO TEMPO COMUM

Celebramos neste domingo a liturgia do 24° domingo do tempo comum e há
uma palavra que pode resumir toda a liturgia da palavra.
A palavra a que me refiro é misericórdia. Como encontrar esta palavra no texto
do livro do Êxodo? Torna-se fácil à medida que compreendemos a última parte do
diálogo de Deus com Moisés. O texto narra que Deus não fará nenhum mal contra o
povo, mesmo que este povo tivesse passado por um momento de tribulação e não
tivesse assim uma fé tão fervorosa.
Deus desiste do mal, ou seja, é a imagem de Deus que é bondade e misericórdia.
O salmo que ouvimos é o salmo 50, composto justamente para que possamos
experimentar com o salmista o que é a misericórdia de Deus, um belo salmo para
rezarmos quando nos encontrarmos reconciliados com o Pai.
O texto da segunda leitura já traz a imagem bíblica do novo testamento. São
Paulo em uma das suas cartas, a primeira delas a Timóteo, testemunha: “eu encontrei
misericórdia, por que antes eu agia com ignorância e não tinha fé, mas Cristo veio para
salvar os pecadores”. São Paulo diz: sou o primeiro deles, pois encontrei em Cristo
Jesus, misericórdia e perdão.
Por meio deste texto de São Paulo, fazemos a ponte direta para o evangelho de
hoje, onde encontramos estampada a palavra misericórdia. Talvez muitos de vocês já
ouviram falar da parábola contada a respeito do filho tratado como filho pródigo. Até
mesmo esta parábola muitas vezes é conhecida como a do filho pródigo, mas mudemos
a percepção; não é uma parábola que tem a centralidade no filho, mas o rosto
misericordioso do pai, poderíamos conhecê-la como a parábola do pai misericordioso.
Mas, antes mesmo de entrarmos neste espírito, do que é a misericórdia para com
esse filho, é preciso compreender que estamos no capítulo 15 do evangelho de Lucas.
Este capítulo é muito especial, poderíamos até guardá-lo como uma grande relíquia do
evangelho de Lucas. No capítulo 15 há esta originalidade do pai misericordioso, e é
como se pudéssemos ter um contato com o coração do evangelho de Lucas e o que o
coração faz? Faz circular vida no corpo e é assim o capítulo 15 do evangelho, como que
impulsiona vida por todo o conjunto do evangelho.
A narrativa do pai misericordioso é uma autêntica de Lucas, só ele narra essa
parábola. As duas outras também são narradas no evangelho de Marcos e Mateus, que
servem de introdução, mas não desconectadas da parábola do pai misericordioso. Foram
contadas por Jesus para os fariseus e mestres da lei, pessoas pertencentes a grupos do
tempo de Jesus, e consideravam-se próximos de Deus. Mas foi contada justamente para
que eles percebessem o modo como Jesus agia, pois estava no meio de publicanos e
pecadores, um grupo completamente excluído desses primeiros.
Jesus, estando no meio dos publicanos e pecadores, ouviu então a crítica dos
mestres da lei: como é que este homem acolhe os pecadores e até faz refeição com eles?
Então Jesus conta essas parábolas.
Interessante, cada uma delas traz uma imagem verdadeira do modo como as
relações familiares são importantes. A primeira parábola fala de um pastor, aquele que
tem um cuidado com as ovelhas e, geralmente no tempo de Jesus, esse trabalho era
exercido por um homem. Então, há uma síntese, e uma imagem do homem, que tem o
cuidado enquanto pastor; e o que faz o pastor? Ele tem cem ovelhas, perde uma, e vai ao

encontro daquela que se perdeu. Mas como deixar 99 tranquilas, e correr ao encontro
daquela que se perdeu, já começa a delinear como é que Deus nos trata.
Ele cuida de todos, vai ao encontro daqueles que não querem mais saber de estar
no seu convívio e quando encontra esta ovelha a coloca nos ombros com alegria.
Aparece o grande sentimento destas parábolas, o pastor que encontrou a ovelha se
alegra, coloca nos ombros, leva novamente para casa e faz uma festa, convida os
vizinhos para festejar.
A segunda parábola é bastante catequética como, de fato, todo o evangelho de
Lucas. Se na primeira tem um homem, na segunda tem uma mulher, outra situação, um
pouco diferente. Uma mulher que tem 10 moedas de prata e perde uma, mas o que é
uma em meio a tantas? Para aquela que perdeu o sentido da vida, justamente por aquela
moeda perdida é muita coisa; por isso, o que faz esta mulher? Ela acende uma lâmpada,
limpa a casa, procura cuidadosamente até encontrar aquela moeda perdida. É assim que
somos convidados a ter um cuidado maior para conosco, quem sabe até fazer uma
varredura em tudo que não serve, para encontrarmos sentido, quem sabe para a vida.
Quando a mulher encontra a moeda, o que ela faz? Reúne as amigas e vizinhas e
diz: alegrai-vos comigo, encontrei o que tinha perdido. Assim faz a conexão com a
palavra: haverá muita alegria no céu por um só pecador que se converte.
E encontramos a bela parábola do pai misericordioso. Tantas vezes
incompreendida, mas que serve como um verdadeiro remédio de como podemos
encontrar em Deus a reconciliação. É uma parábola longa, cheia de detalhes, para
explicar o modo como Deus cuida de cada ser humano.
O filho mais novo pede a parte da herança, havia diferença na parte da herança,
que geralmente era feita segundo o livro do Eclesiástico, depois que o pai falece. Mas o
filho mais novo foi audacioso, pediu parte da herança ao pai, um terço da herança,
enquanto o mais velho 2 terços, o pai concede a herança e esse filho sai pelo mundo. É
a expressão de muitos filhos desgarrados do seio familiar, muitos até próximos, que
deixaram o convívio familiar, tomaram o que é seu e andaram pelo mundo, como este
filho mais novo.
Uma herança dividida anteriormente se gasta muito facilmente, os bens materiais
passam. O que faz o filho mais novo? Percebe que perdeu tudo, a liberdade que ganhou
do pai não servia para mais nada, pois transformou liberdade em libertinagem. Este é
um cuidado para conosco, porque Deus nos fez livres, escolhemos nosso caminho, mas
liberdade para agir com prudência.
E tudo acabou, percebeu-se na miséria, a pior miséria na sagrada escritura com
relação a uma pessoa humana porque para os judeus se alimentar de comida de porcos
não é permitido. Tantos drogados, frutos de violência, já perderam tudo, e precisam
encontrar o sentido para a existência; o que faz o filho? Ele toma consciência do que
fez. Tomar consciência do pecado, assim como usar da liberdade de maneira errada,
mas ter consciência de retornar, mais difícil do que pedir parte da herança, porque voltar
para a casa e pedir perdão é uma atitude de alguém que encontrou sentido além da
existência humana.
Então, ele tomando consciência volta, e qual é a surpresa? O pai não pergunta
nada, é um pai que corre até o filho, abraça-o e o cobre de beijos. É assim que Deus
trata, somos todos pecadores, infelizmente não conseguimos manter aquela veste branca
recebida no batismo. No dia do batizado fomos imersos na pureza de Deus, mas depois

do batismo há o pecado e a forma de sairmos do pecado se chama sacramento da
reconciliação.
Por isso a postura de Deus quando pedimos perdão, confessamos nossos
pecados, da mesma forma como um dia fomos batizados em nome trinitário, no dia da
confissão, somos absolvidos em nome da trindade. Da mesma forma, para dizer que se
um dia fomos mergulhados no batismo, por meio da reconciliação também recebemos
uma vida nova, uma veste nova, como este filho, a melhor túnica, o anel, sandálias.
E, ainda mais, toda reconciliação com o pai precisa terminar em festa, pois o pai
encontrou o filho perdido. Mas surge no final da parábola a imagem do filho mais
velho, que nem considerava o filho mais novo como irmão, “este teu filho”, o mínimo
de irmandade e de consideração, de respeito humano, ele não aprendeu e o próprio pai
responde: mas filho, você está sempre aqui comigo, tudo que é meu é teu, mas é preciso
festejar, pois este seu irmão estava morto e tornou a viver, foi perdido e encontrado.
Que beleza é este texto, porque nos mostra o carinho de Deus para conosco. Não
tenhamos medo de fazer uma boa confissão, por ela encontramos de novo a salvação;
vou concluir com o prefácio da missa da penitência: “somos criaturas saídas de vossas
mãos amorosas, mas naufragamos por causa do pecado, vossa misericórdia veio em
nosso socorro, e em Cristo crucificado e ressuscitado reencontramos o porto da paz”.
Se um dia fomos salvos pelo batismo, pela reconciliação encontramos de novo a
salvação, porque a reconciliação nos convida a uma renovação, a santidade, e nos
introduz ao banquete do reino. Fazendo parte do coro dos reconciliados, podemos
expressar jubilosos como Deus é bom e misericordioso.

Escrito por: PE. MAURÍCIO