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LITURGIA DO V DOMINGO DA PÁSCOA

19 de Maio

DOMINGO V DA PÁSCOA – ANO C

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 97, 1-2
Cantai ao Senhor um cântico novo, porque o Senhor fez maravilhas: aos olhos das nações revelou a sua justiça. Aleluia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor nosso Deus,
que nos enviastes o Salvador
e nos fizestes vossos filhos adoptivos,
atendei com paternal bondade as nossas súplicas
e concedei que, pela nossa fé em Cristo,
alcancemos a verdadeira liberdade e a herança eterna.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Actos 14, 21b-27
«Contaram à Igreja tudo o que Deus tinha feito com eles»

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Paulo e Barnabé voltaram a Listra, a Icónio e a Antioquia. Iam fortalecendo as almas dos discípulos e exortavam-nos a permanecerem firmes na fé, «porque – diziam eles – temos de sofrer muitas tribulações para entrarmos no reino de Deus». Estabeleceram anciãos em cada Igreja, depois de terem feito orações acompanhadas de jejum, e encomendaram-nos ao Senhor, em quem tinham acreditado. Atravessaram então a Pisídia e chegaram à Panfília; depois, anunciaram a palavra em Perga e desceram até Atalia. De lá embarcaram para Antioquia, de onde tinham partido, confiados na graça de Deus, para a obra que acabavam de realizar. À chegada, convocaram a Igreja, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 144, 8-13ab (R. 1)
Refrão: Louvarei para sempre o vosso nome,
Senhor, meu Deus e meu Rei. Repete-se

Ou: Aleluia. Repete-se

O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.
O Senhor é bom para com todos
e a sua misericórdia se estende a todas as criaturas. Refrão

Graças Vos dêem, Senhor, todas as criaturas
e bendigam-Vos os vossos fiéis.
Proclamem a glória do vosso reino
e anunciem os vossos feitos gloriosos. Refrão

Para darem a conhecer aos homens o vosso poder,
a glória e o esplendor do vosso reino.
O vosso reino é um reino eterno,
o vosso domínio estende-se por todas as gerações. Refrão

LEITURA II Ap 21, 1-5a
«Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos»

Leitura do Livro do Apocalipse
Eu, João, vi um novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, bela como noiva adornada para o seu esposo. Do trono ouvi uma voz forte que dizia: «Eis a morada de Deus com os homens. Deus habitará com os homens: eles serão o seu povo e o próprio Deus, no meio deles, será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor, porque o mundo antigo desapareceu». Disse então Aquele que estava sentado no trono: «Vou renovar todas as coisas».
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 13, 34
Refrão: Aleluia. Repete-se

Dou-vos um mandamento novo, diz o Senhor:
amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei. Refrão

EVANGELHO Jo 13, 31-33a.34-35
«Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Quando Judas saiu do Cenáculo, disse Jesus aos seus discípulos: «Agora foi glorificado o Filho do homem e Deus foi glorificado n’Ele. Se Deus foi glorificado n’Ele, Deus também O glorificará em Si mesmo e glorificá-l’O-á sem demora. Meus filhos, é por pouco tempo que ainda estou convosco. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros».
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Senhor nosso Deus,
que, pela admirável permuta de dons neste sacrifício,
nos fazeis participar na comunhão convosco,
único e sumo bem,
concedei-nos que, conhecendo a vossa verdade,
dêmos testemunho dela na prática das boas obras.
Por Nosso Senhor.

Prefácio pascal

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Jo 15, 1.5
Eu sou a videira e vós sois os ramos, diz o Senhor. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, dá fruto
abundante. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Protegei, Senhor, o vosso povo
que saciastes nestes divinos mistérios
e fazei-nos passar da antiga condição do pecado
à vida nova da graça.
Por Nosso Senhor.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

No sofrimento, a raiz da glória

Embora constatemos a instintiva repugnância de nossa natureza em relação a todo sofrimento, é nele que se encontra a porta da autêntica felicidade, e no amor ao próximo o sinal característico do cristão.

I – A harmonia da natureza humana no Paraíso

Nossa vida na face da Terra pode ser definida como uma grande prova, pois viemos a este mundo para enfrentar uma existência tisnada pelo pecado, repleta de dificulda­des, e só se formos fiéis às graças recebidas obteremos o prêmio da eterna bem-aventurança. A prova é posta pelo Criador no ca­minho de todos os seres inteligentes, e nem sequer os Anjos foram chamados à visão beatífica sem passar por ela.1 Adão e Eva, nos­sos primeiros pais, tinham sido introduzidos no Paraíso, em graça, também para serem experimentados e não foram fiéis. Ao romper a obediência e comer o fruto proibido, foram expulsos do Éden e privados de muitos dos privilégios concedidos por Deus quando viviam em estado de justiça, dentre os quais a ciência infusa, que dava o conhecimento dos segredos da natureza, a impassibilidade, pela qual não adoeciam, e o magnífico dom de integridade.

O dom de integridade

Esse dom especialíssimo fazia com que todas as inclina­ções das paixões e os impulsos da natureza estivessem em har­monia com a lei divina.2 A sensibilidade e a vontade eram governadas pela razão perfei­tamente equilibrada, e esta se submetia com docilidade às determinações de Deus. A ordenação do homem antes do pecado poderia ser comparada a um motor afinado, sem nenhum para­fuso frouxo, ou a um crochê muito bem feito, sem ne­nhum ponto solto; em todos os movimentos de alma e de corpo reinava o mais com­pleto equilíbrio, sem ne­nhum esforço. Com o dom de integridade jamais der­ramaríamos uma lágrima, não teríamos dores ou sofri­mentos de qualquer tipo, e o drama não se apresentaria em nossas vidas, pois tudo seria conforme a ordem estabelecida pelo Criador.

Só conhecendo de perto Nosso Senhor e Nossa Senhora poderíamos ter uma ideia exata de tal privilégio, já que ambos o possuíram desde o primeiro instante da concepção, por não ha­ver passado por Eles nem sequer a sombra da mancha do peca­do. Em Jesus encontramos esse dom em grau infinito, pois n’Ele todas as ações humanas são reflexo das divinas, em consequên­cia da união indestrutível entre ambas as naturezas. Esta graça de união faz com que Ele, mesmo enquanto Homem, seja intrín­seca e absolutamente impecável, e que todo o seu Corpo e até o menor de seus movimentos sejam santos de maneira infinita.3 No caso de Nossa Senhora, pura criatura humana divinizada pe­la graça, reconhecemos esse dom por não haver n’Ela nenhum movimento desordenado.

Onde está a origem da necessidade do dom de integrida­de para o homem? No fato de ser ele um microcosmo, contan­do em sua natureza com elementos do reino mineral, vegetal, animal e espiritual, aos quais se acrescenta uma participação na vida divina, pela graça. Estes elementos trazem leis contraditó­rias que, devido ao pecado, se entrechocam em nosso interior. Por exemplo, se por um lado o elemento espiritual pede uma dedicação cada vez maior aos impalpáveis e ao sobrenatural, a lei animal se esquiva dessa tendência, chamando nossa atenção para o que é concreto e material. Enquanto o Mandamento de Deus ordena não cobiçar as coisas alheias, nossos instintos nos induzem à apropriação daquilo que nos agrada, embora não nos pertença. Os exemplos poderiam ser indefinidamente multipli­cados, pois há uma luta constante entre as várias leis que origi­nam as dificuldades desta vida e causam tormento, perplexidade e dor. Eis a razão de São Paulo afirmar: “No meu íntimo, eu amo a Lei de Deus; mas percebo em meus membros outra lei que luta contra a lei da minha razão e que me torna escravo da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7, 22-23). É o preceito de Deus a exigir do Apóstolo um determinado compor­tamento, enquanto o instinto o leva a tomar atitudes em sentido oposto. Esse é o drama do ser humano na face da Terra.

Por isso, querer programar uma vida sem sofrimento é algo impossível, pois não há ninguém livre de contrariedades. Não obs­tante, é factível compensar a ausência desse dom, fazendo com que, de alguma maneira, seus efeitos se operem em nossas almas?

Regressar às vias do dom de integridade

A solução se encontra em um fator a respeito do qual houve quem ousasse aproximá-lo ao gênero dos sacramentos,4 quiçá um “oitavo sacramento” — acrescentando de forma ana­lógica um novo componente ao definitivo septenário que a doutrina católica nos ensina —, e este é o sofrimento. Há na alma humana, de fato, uma aptidão que o Prof. Plinio Corrêa de Olivei­ra designava como “so­fritiva”, que consiste em “uma como que capaci­dade e necessidade de sofrer”.5 Da mesma for­ma que os nossos mús­culos precisam ser exer­citados para não defi­nhar, assim também nós — uma vez expulsos do Paraíso e perdido o dom de integridade — preci­samos passar pelo exer­cício do sofrimento para que este equilibre nossa natureza desordenada. E quando nossa facul­dade de sofrer “não se esgota pelo sofrimento efetivo, acaba determi­nando uma frustração maior que faz sofrer mais do que o so­frimento. O modo menos sofrível de levar a vida consiste em sofrer. Uma das razões profundas dos desequilíbrios modernos é que as pessoas não sofrem, porque acabam estabelecendo a ideia de que é possível levar uma vida sem sofrimento”.6 Numa palavra, é a dor que faz do homem uma criatura ditosa nesta vida de estado de prova. Tal doutrina parece muito difícil de ser admitida, pois nossa natureza não pode rejeitar a felicidade e está a cada instante à sua procura. No entanto, já os filósofos pagãos intuíram, pelo simples recurso à razão e à lógica, o pa­pel da dor na vida humana. “Julgo-te um desgraçado se nunca o foste: passaste a vida sem ter contrariedade; ninguém (nem mesmo tu) conhecerá até onde alcançam tuas forças”,7 chegou a afirmar Sêneca.

Deus, que nos criou ávidos de encontrar a felicidade, tam­bém colocou em nossa alma a capacidade de sofrer. Qual a razão para este divino modo de agir? É o que nos ensina com grande profundidade a Liturgia do 5º Domingo da Páscoa.

II – A verdadeira glória só nasce da dor

O Evangelho apresenta um trecho do discurso de despe­dida de Nosso Senhor na Santa Ceia. Nesse momento auge, em que Ele instituía para os séculos futuros o Sa­cramento da Eucaristia — o mais precioso de todos os Sacra­mentos, no que diz respeito à substância —, tinha diante de Si um assistente de péssimas intenções. Depois de Judas receber o pedaço de pão molhado, a morte entrou nele, pois, embora já estivesse em pecado mortal por ter tramado a entrega do Divi­no Mestre, tornou-se presa de um demônio animado de grande fúria, o qual não suportava mais a humilhação infligida aos in­fernos por um Homem que operava tão grandes milagres e tinha tanto poder. O espírito das trevas, desde muito antes, constatara quanto seu império periclitava, já fora de controle.8

31 Depois que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado n’Ele. 32 Se Deus foi glorificado n’Ele, também Deus o glorificará em Si mesmo, e O glorificará logo”.

À primeira vista, o versículo parece incompreensível. Qual é o momento, o agora, em que Nosso Senhor diz que é glorifi­cado? É quando Judas abandona de forma definitiva o convívio do Colégio Apostólico, a fim de entregar o Salvador aos poderes deste mundo, para ser julgado e morto. Jesus, em sua natureza divina, tinha pleno conhecimento de todas as dores pelas quais iria passar, a ponto de transpirar Sangue no Horto das Oliveiras.

Perante a perspectiva da traição, porém, ficou “perturbado em seu espírito” (Jo 13, 21), pois, mesmo tendo em sua personali­dade divina a ciência daquele instante, desde toda a eternidade, no que dizia respeito aos meros sentimentos humanos ainda não sofrera a experiência da deslealdade, o que dilacerou seu instin­to de sociabilidade. Ademais, outro Apóstolo haveria de negá­-Lo e os demais fugiriam; por isso Ele diz: “Para onde eu vou, não podeis ir” (Jo 13, 33). A cena é pungente, pois, sendo sua natureza humana perfeita, essa infidelidade Lhe custou muito mais do que custaria a qualquer um de nós.

“A alma tão delicada e ponderada de Jesus teve de sofrer múltiplas incompreensões, preconceitos e ideias ambiciosas de seus Apóstolos. […] Uma dor mais lancinante estava reservada ao Coração de Jesus: um dos Doze, que Ele havia escolhido com tanto zelo, acompanhado com tanto devotamento, a quem dera inclusive uma missão de confiança, deveria traí-Lo”.9 Cristo re­cebeu aquela ingratidão com equilíbrio perfeito, num estado de espírito plenamente resignado. Contudo, enquanto sofria, veio­-Lhe também o consolo, porque sabia ser através dessa aceita­ção que iniciaria sua glória.

O Pai queria a maior glória para o Filho

A partir do momento em que Nosso Senhor — Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e, ao mesmo tempo, Homem perfeitíssimo com a alma na visão beatífica, dotado de ciência infusa e de conhecimento experimental — deu seu pleno con­sentimento à Paixão, essa glória se realizou. Sua exaltação con­sistiu em ser preso, passar por todos os tormentos da condena­ção, subir ao Calvário, ser levantado na Cruz e ali derramar todo o Sangue, até o traspassamento do seu Coração. Quando o Ver­bo eterno Se encarnou, fê-lo invertendo uma lei por Ele instituí­da, pois sua alma fora criada na visão beatífica e, apesar disso, assumiu um corpo padecente, quando deveria ser glorioso.10 Ele rejeitou tais prerrogativas por desejar um corpo semelhante ao nosso, apenas não manchado pelo pecado, para poder padecer, dar-nos exemplo e, sobretudo, porque o queria o Pai, com vistas a que a glória eterna d’Ele enquanto homem fosse a maior pos­sível. O sofrimento bem aceito, amado e assumido Lhe obteve o triunfo, o que significa que o cumprimento dos desígnios do Pai não exigia a magnificência do corpo glorioso, os esplendores de um poder terreno ou uma exaltação da parte dos homens, mas apenas a conformidade com a dor.

Ademais, estava Nosso Senhor ciente de que o fim não era a morte, e sim a Ressurreição e a Ascensão aos Céus, onde re­ceberia a definitiva glorificação e o reconhecimento eterno do Pai, dos Bem-aventurados e dos Anjos, por haver cumprido sua missão redentora. Reciprocamente, o Pai também seria glorifi­cado, porque Ele e o Filho são um. Era essa união substancial que permitiria, pela aceitação do sofrimento tal como este se apresentava, que Jesus enaltecesse Aquele que O enviara.

Nossa glória também deve estar no sofrimento

Uma análise mais profunda dos padecimentos de Cristo in­dica que nossa glória também é obtida pelo sofrimento. Quantas vezes a graça nos inspira a trilharmos uma determinada via, que passamos a percorrer com entusiasmo, na qual, entretanto, surgem dificuldades. Diante do sofrimento nunca devemos desanimar. Pe­lo contrário, quando a cruz se apresentar, cabe-nos imitar Nosso Senhor Jesus Cristo: ajoelharmo-nos, oscular o instrumento de nossa amargura e pô-lo aos ombros com determinação, certos de que assim se inicia o caminho da nossa glória. Nesse sentido ensina com sabedoria São Francisco de Sales: “Quão felizes são as almas que […] bebem corajosamente o cálice dos sofrimentos com Nos­so Senhor, que se mortificam carregando sua cruz, e que sofrem e recebem de sua divina mão toda sorte de acontecimentos, com sub­missão e amor, conforme o seu beneplácito”.11 O mesmo Doutor da Igreja ainda comenta: “O sofrimento dos males é a mais digna oferta que podemos fazer Àquele que nos salvou sofrendo”.12

Os dramas que temos de enfrentar são indispensáveis para a conquista da eternidade feliz. Ao aceitarmos um sofrimento com toda resignação, amor e piedade, introduzimos na alma a paz, pois fazemos calar o egoísmo e manifestamos, não só por palavras, mas também por atos, o desejo de ir para o Céu, uma vez que “a felicidade consiste em sofrer com peso e medida, ten­do em vista um determinado fim”.13 Desta forma, quando a tri­bulação se abater sobre nós nunca devemos murmurar contra Deus pelo fato de tê-la permitido; devemos seguir o exemplo de Jesus, que exclamou: “Se for possível afasta de mim esse cálice, mas faça-se antes a tua vontade do que a minha” (Lc 22, 42). Cheios de contentamento, conformemo-nos com a vontade de Deus, certos de que tudo o que nos acontece visa ao bem de nos­sas almas, pois Ele não pode querer para nós o mal.

Consideremos com alegria que estamos nesta Terra ape­nas de passagem, pois, se nela permanecêssemos para sempre, os tormentos iriam variando e se sucedendo indefinidamente. Portanto, para aqueles que enfrentam bem a prova à imitação de Nosso Senhor, a morte significa ter chegado o momento de descansar. Por isso canta a Igreja na Liturgia dos defuntos: “re­quiescant in pace — descansem em paz”.

Não foi outro o ensinamento de São Barnabé e São Pau­lo aos fiéis de Antioquia, contemplado na primeira leitura desta Liturgia: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14, 22). Por outro lado, a ausência do sofrimento significa a perda de uma valiosa oportunidade pa­ra comprovarmos o quanto somos contingentes e dependemos de Deus, já que existimos apenas porque Ele nos sustenta no ser, a cada instante. Dessa dependência só nos compenetramos pela dor, pois ela mostra a nossa pequenez e nos leva ao reconhecimento de que necessitamos de um Bem infinito, não existente em nós.

III – Uma prática antiga sob uma nova forma

Sem embargo, para que a dor bem aceita dê seus frutos, Jesus nos oferece um meio seguro: um novo manda­mento para guiar a conduta de todos os que se conside­ram seus discípulos.

33a “Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco”.

O Mestre estava ciente, como foi recordado, de que a hora da partida já se aproximava e, embora fosse ressuscitar, iria deixá­-los após a Ascensão aos Céus. Assim, antes do início de seus su­plícios, desejava transmitir as recomendações mais importantes, criando condições para que os Apóstolos se dessem conta da imi­nência da Paixão e fixassem a essência de sua divina doutrina.

34 “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”.

Surpreende que na primeira frase deste versículo Nosso Se­nhor Se refira ao amor de uns pelos outros como um mandamen­to novo. Sabemos que desde o início da humanidade o amor já era praticado e todos se queriam de alguma maneira. Onde está a novidade? Precisamente na forma que nos é indicada, pois esse amor não é como antes. Esta novidade é o exemplo dado por Ele, conforme ensina São João Crisóstomo: “Como é que chamou ‘novo’ a este mandamento, se já é encontrado no Antigo Testa­mento? Ele o tornou novo pelo modo com que se amariam. Para este fim, acrescentou: ‘como Eu vos tenho amado’. […] Não men­cionou os milagres que iam realizar e os identificou [os discípulos] por sua caridade. Por que fez isso? Porque esta virtude é o sinal distintivo dos homens santos e a base de toda virtude. Por meio dela todos somos salvos”.14 De fato, até então o amor se molda­va por padrões humanos, correspondendo à retribuição de algum benefício recebido ou a uma iniciativa que traria como consequ­ência o auxílio desejado. Sempre havia um fundo de interesse — ou de vantagem, pelo menos — no amor ao próximo como era concebido nas sociedades do Antigo Testamento. Pois bem, Jesus nos ensina não ser esse o amor que Ele tem por nós.

Enquanto Deus, Ele quer bem a cada um com amor per­feito, eterno e absoluto; bem como a partir de sua humanidade nos estima como irmãos, sendo que a origem dessa afeição é a sua divindade. Esse amor de Deus por suas criaturas é misterio­so e tem suas peculiaridades, pois, como Criador, Ele é o único que não pode amar o que fez senão por amor a Si mesmo, já que, ao criar, deixou seu vestígio em todos os seres,15 conforme lemos no Livro da Sabedoria: “Porque amais tudo que existe, e não odiais nada do que fizestes, porquanto, se o odiásseis, não o teríeis feito de modo algum. Como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada? Mas poupais todos os seres, por­que todos são vossos, ó Senhor, que amais a vida” (Sb 11, 24- 26). Entretanto, em se tratando dos seres racionais, Deus não pôs neles apenas um rastro, mas fê-los à sua imagem.16 Podemos compreender isso melhor, em alguma medida, através de um exemplo. A máquina fotográfica goza de imensa aceitação em nossa sociedade, porque com ela se pode guardar a lembrança de algum momento da vida que gostaríamos de reviver. Ora, a fotografia é apenas uma reprodução inanimada dos aconteci­mentos, e não deixa de ser verdadeiro que ela retém algo do que se passa. Nós somos “fotografias”, nas quais as Três Pessoas da Santíssima Trindade Se comprazem em reconhecer sua imagem e em amar-Se a Si mesmas refletidas, contemplando em ato o plano idealizado desde toda a eternidade para cada um de nós.

Esse ponto de partida, verdadeiramente sublime, abre no­vas perspectivas para o convívio humano, que passa a ser pauta­do pela procura mútua, nos outros, dos reflexos da bondade que existe em Deus num grau infinito. Nosso próximo deve ser visto por nós como um espelho da Santíssima Trindade, uma obra­-prima ou uma pedra preciosa fulgurante, de incalculável valor, lavrada pelo poder divino. Daí nasce a autêntica consonância, que é a faísca primeira do amor entre as almas chamadas a se unir face a um ideal, para o qual olham em harmonia, como no­tou com sutileza Saint-Exupéry ao definir a superior forma de união surgida quando “homens do mesmo grupo experimentam o mesmo desejo de vencer”.17 Se entre pessoas que amam a Deus se verifica um imbricamento que tem sua origem neste santo ide­alismo, fica comprovada a prática do novo mandamento.

Não nos esqueçamos, porém, de que o verdadeiro amor de uns para com os outros deve ser hierarquizado, uma vez que Deus colocou seus reflexos nas almas de forma desigual, dando a cada qual um aspecto único, em uma variedade que manifesta a incomparável riqueza do Criador.

Amor manifestado no empenho de santificar os outros

A extensão do amor divino é incomensurável, pois Deus es­tá disposto a fazer por nós tudo quanto seja necessário, a ponto de ter oferecido a própria vida passando pela crucifixão, o pior su­plício de seu tempo. Ele Se imolou por todos e o faria se fosse por um só homem. Por essa razão nosso amor para com os outros tam­bém deve ser levado até às últimas consequências, ambicionando para eles o que Deus quer para cada um: a santidade. Desejar que o próximo saia da consideração egoísta, pragmática e interesseira do mundo e rume para a Jerusalém Celeste é a mais perfeita ma­nifestação de amor que podemos lhe dar. Devemos empreender, para isso, todos os meios ao nosso alcance, suportando suas debi­lidades, corrigindo-o com compaixão, dando bons exemplos e sa­crificando nossos gostos e preferências pessoais, se com isso o aju­damos na prática da virtude, ainda sabendo que esses pequenos atos representam muito pouco perto do que nos está reservado ao cruzar os umbrais da eternidade, pelos méritos infinitos do Divino Modelo. Maravilhoso mandamento que, ao ser praticado, ordena a alma e elimina apegos, caprichos e dificuldades do relaciona­mento humano. Desta maneira, todas as misérias se desvanecem, permanecendo apenas um amor sobrenatural, que é a ternura de Deus pelas criaturas e das criaturas entre si.

É oportuno também aplicarmos esse ensinamento a um plano individual, a cada um de nós. Se esse deve ser nosso amor para com os outros, recordemos que quando a prática da virtude da humildade é mal concebida, temos a tendência de considerar nossas próprias insuficiências para nos autodestruir, indo contra o amor de Deus. Uma vez que fomos criados, podemos afirmar com plena certeza que há em nós algum reflexo divino que deve ser objeto do nosso amor para conosco, paralelo ao amor que Ele nos tem. Quando fazemos algo de bom e Ele nos premeia, não está exaltando o nosso esforço, mas seus próprios dons,18 e, portanto, Se glorifica a Si próprio. E se são os dons d’Ele que reconhecemos em nós, cabe-nos amá-los para praticar o novo mandamento com toda integridade.

O sinal distintivo dos verdadeiros cristãos

35 “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”.

Neste último versículo Nosso Senhor dá um passo a mais e declara ser a forma de amor ensinada por Ele o fator distintivo dos que realmente O seguem. As pessoas alheias ao convívio dos cristãos, ao verem um amor tão autêntico, dão-se conta de que ali está presente o próprio Deus. E apesar de ter Ele ido para o Céu, não abandonou sua Igreja, pois prometeu: “Sempre que dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei entre eles” (Mt 18, 20). O fato de vivermos sob o influxo do amor so­brenatural de que Ele nos deu exemplo é um modo de prolongar nesta Terra sua presença, orientando, amparando e instruindo com desinteresse os que também O amam, sem nenhum senti­mentalismo, romantismo ou egoísmo, senão com um amor tão puro que cause admiração aos homens e até aos próprios Anjos, a ponto de estes últimos poderem encontrar na face da Terra um límpido espelho do convívio entre os eleitos na visão beatífica.

IV – Sofrimento e amor: causas do prêmio final

Face ao panorama descortinado pelo Evangelho deste 5º Domingo da Páscoa, não podemos deixar de ter pre­sente o fim a que nos conduz a noção sobrenatural do sofrimento e do amor ao próximo levado até à imitação daquele que Nosso Senhor manifestou por nós. Tal fim é apontado com muita clareza na segunda leitura, extraída do Apocalipse: “Esta é a morada de Deus entre os homens, Deus vai morar no meio deles. E eles serão o seu povo, e o próprio Deus estará com eles. Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, por­que passou o que havia antes” (21, 3-4).

São João indica, profeticamente, o local destinado a todos os que seguirem as recomendações dadas pelo Redentor, onde não existe mais a dor e a alegria é plena na visão de Deus face a face. Diante da eternidade feliz todo sofrimento desta Terra será nada, como escreveu Santa Teresinha: “quando penso que por um sofrimento suportado com alegria amaremos melhor a Deus durante toda a eternidade!”.19 Sim, nem sequer vamos nos lembrar das dificuldades que tivemos neste mundo, pois o es­tado de prova terá passado como num piscar de olhos. Restará apenas a bem-aventurança.

Não somos capazes de conceber como será a vida na eterni­dade: tão cheia de gozo que São Paulo, após subir ao terceiro céu, voltou sem conseguir exprimir em termos humanos o que Deus tem preparado para os que O amam (cf. I Cor 2, 9), e da qual São João Bosco, tendo visitado em sonho a antecâmara do Paraíso, re­gressou descrevendo maravilhas.20 O convívio com os Anjos, com os Santos, com Nossa Senhora e com Deus é o que nos aguar­da; mas, para chegarmos a esse Reino, aceitemos com resignação todos os sofrimentos permitidos pela Providência Divina para o nosso bem e amemos nossos irmãos com sincera afeição. Não nos esqueçamos de que as dores terminam na hora da nossa morte, enquanto no Céu “a caridade jamais acabará” (I Cor 13, 8).

 

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1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.64, a.2.

2) Cf. Idem, q.95, a.1.

3) Cf. ROYO MARÍN, OP, Antonio. Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p.72-73.  

4) Cf. BEAUDENOM, Léopold. Méditations affectives et pratiques sur l’Évangile. Pa­ris: Lethielleux, 1912, t.I, p.227-228; FABER, apud CHAUTARD, OSCO, Jean- Baptiste. A alma de todo apostolado. São Paulo: FTD, 1962, p.112.

5) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 23 maio 1964.

6) Idem, ibidem.  

7) SÊNECA. Tratados filosóficos. Cartas. México: Porrúa, 1979, p.75.

8) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.81, a.2.

9) TANQUEREY, Adolphe. La divinisation de la souffrance. Tournai: Desclée, 1931, p.26.

10) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., III, q.14, a.1, ad 2.

11) SÃO FRANCISCO DE SALES. Sermon pour la feste de Saint Jean Porte-Latine. In: OEuvres Complètes. Sermons. 2.ed. Paris: Louis Vivès, 1862, t.IV, p.540.

12) SÃO FRANCISCO DE SALES. Lettre CXII, à une dame. In: OEuvres Complètes. Lettres Spirituelles, op. cit., t.X, p.333.

13) CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit.

14) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía LXXII, n.3. In: Homilías sobre el Evangelio de San Juan (61-88). Madrid: Ciudad Nueva, 2001, v.III, p.130.

15) Cf. ROYO MARÍN, OP, Antonio. Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p.451.

16) Idem, ibidem.

17) SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Vol de nuit. Paris: Gallimard, 1931, p.104.  

18) Cf. SANTO AGOSTINHO. Epistola CXCIV, c.V, n.19. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1972, v.XIb, p.71.

19) SANTA TERESA DE LISIEUX. Carta 43b, à Irmã Inês de Jesus. In: Obras Com­pletas. Paço de Arcos: Carmelo, 1996, p.345.

20) Cf. SÃO JOÃO BOSCO. Vestíbulo del Cielo. In: Biografía y escritos. Madrid: BAC, 1955, p.654-663.  

FONTE: https://portugal.blog.arautos.org/liturgia/liturgia-dominical/