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LITURGIA NA ASCENSÃO DO SENHOR

2 de Junho

ASCENÇÃO DO SENHOR – ANO C

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Actos 1, 11
Homens da Galileia, porque estais a olhar para o céu?
Como vistes Jesus subir ao céu, assim há-de vir na sua glória. Aleluia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus omnipotente,
fazei-nos exultar em santa alegria e em filial acção de graças,
porque a ascensão de Cristo, vosso Filho, é a nossa esperança:
tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça,
para aí nos chama como membros do seu Corpo.
Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Actos 1, 1-11
«Elevou-Se à vista deles»

Leitura dos Actos dos Apóstolos
No meu primeiro livro, ó Teófilo, narrei todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, desde o princípio até ao dia em que foi elevado ao Céu, depois de ter dado, pelo Espírito Santo, as suas instruções aos Apóstolos que escolhera. Foi também a eles que, depois da sua paixão, Se apresentou vivo com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando-lhes do reino de Deus. Um dia em que estava com eles à mesa, mandou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a promessa do Pai, «da qual – disse Ele – Me ouvistes falar. Na verdade, João baptizou com água; vós, porém, sereis baptizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias». Aqueles que se tinham reunido começaram a perguntar: «Senhor, é agora que vais restaurar o reino de Israel?». Ele respondeu-lhes: «Não vos compete saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade; mas recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém e em toda a Judeia e na Samaria e até aos confins da terra». Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem escondeu-O a seus olhos. E estando de olhar fito no Céu, enquanto Jesus Se afastava, apresentaram-se-lhes dois homens vestidos de branco, que disseram: «Homens da Galileia, porque estais a olhar para o Céu? Esse Jesus, que do meio de vós foi elevado para o Céu, virá do mesmo modo que O vistes ir para o Céu».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 46 (47), 2-3.6-7.8-9 (R. 6)
Refrão: Por entre aclamações e ao som da trombeta,
ergue-Se Deus, o Senhor. Repete-se

Ou: Ergue-Se Deus, o Senhor,
em júbilo e ao som da trombeta. Repete-se

Povos todos, batei palmas,
aclamai a Deus com brados de alegria,
porque o Senhor, o Altíssimo, é terrível,
o Rei soberano de toda a terra. Refrão

Deus subiu entre aclamações,
o Senhor subiu ao som da trombeta.
Cantai hinos a Deus, cantai,
cantai hinos ao nosso Rei, cantai. Refrão

Deus é Rei do universo:
cantai os hinos mais belos.
Deus reina sobre os povos,
Deus está sentado no seu trono sagrado. Refrão

LEITURA II Ef 1, 17-23
«Colocou-O à sua direita nos Céus»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Irmãos: O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos conceda um espírito de sabedoria e de revelação para O conhecerdes plenamente e ilumine os olhos do vosso coração, para compreenderdes a esperança a que fostes chamados, os tesouros de glória da sua herança entre os santos e a incomensurável grandeza do seu poder para nós os crentes. Assim o mostra a eficácia da poderosa força que exerceu em Cristo, que Ele ressuscitou dos mortos e colocou à sua direita nos Céus, acima de todo o Principado, Poder, Virtude e Soberania, acima de todo o nome que é pronunciado, não só neste mundo, mas também no mundo que há-de vir. Tudo submeteu aos seus pés e pô-l’O acima de todas as coisas como Cabeça de toda a Igreja, que é o seu Corpo, a plenitude d’Aquele que preenche tudo em todos.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Mt 28, 19a.20b
Refrão: Aleluia. Repete-se
Ide e ensinai todos os povos, diz o Senhor:
Eu estou sempre convosco
até ao fim dos tempos. Refrão

EVANGELHO Lc 24, 46-53
«Enquanto os abençoava, foi elevado ao Céu»

Conclusão do santo Evangelho segundo São Lucas
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso. Eu vos enviarei Aquele que foi prometido por meu Pai. Por isso, permanecei na cidade, até que sejais revestidos com a força do alto». Depois Jesus levou os discípulos até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu. Eles prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Recebei, Senhor, o sacrifício que Vos oferecemos
ao celebrar a admirável ascensão do vosso Filho
e, por esta sagrada permuta de dons,
fazei que nos elevemos às realidades do Céu.
Por Nosso Senhor.

Prefácio da Ascensão

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Mt 28, 20
Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Deus eterno e omnipotente,
que durante a nossa vida sobre a terra
nos fazeis saborear os mistérios divinos,
despertai em nós os desejos da pátria celeste,
onde já se encontra convosco, em Cristo,
a nossa natureza humana.
Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A Ascensão do Senhor

Os frutos da Ascensão nos beneficiam a cada instante, tal como a última bênção de Jesus aos Apóstolos, no Monte das Oliveiras, se prolonga através da História até cada um de nós.

I – Suprema glorificação de Cristo

As vezes, a perfuração produzida por uma agulha é mais danosa do que o golpe de um martelo, sobretudo quan­do ela atinge pontos vitais. Essa comparação talvez ainda ganhe em substância e expressividade se revertida para o campo da polêmica doutrinária, como se verificou na refutação de São Bernardo ao judeu que, no alto do Calvário, desafiou a Cristo em sua agonia: “Se és o Filho de Deus, desce da Cruz” (cf. Mt 27, 42; Mc 15, 32). Segundo o Fundador de Claraval, é mal concebida essa proposta para comprovar a origem divina de Jesus, pois a realeza, e mais ainda a divindade de um ser, não se torna patente pelo ato de descer, mas muito ao contrário, pelo de subir. E foi exatamente o que sucedeu com Jesus, quarenta dias após sua triunfante Ressurreição. Por isso, debaixo de certo ângulo, a Ascensão do Senhor ao Céu constitui a festa de maior importância ao representar a glorificação suprema de Cristo Je­sus. Ele próprio a havia pedido ao Pai: “Glorifica-Me junto de Ti mesmo, com aquela glória que tive em Ti, antes que houvesse mundo” (Jo 17, 5); “Pai, chegou a hora, glorifica o teu Filho, para que teu Filho glorifique a Ti” (Jo 17, 1). Daí ser compre­ensível a manifestação de alegria dos Santos Padres, como San­to Agostinho, ao comentarem essa glorificação do Cordeiro de Deus. “A glória de Nosso Senhor Jesus Cristo se completa com sua Ressurreição e Ascensão. […] Temos, pois, o Senhor, nosso Salvador, Jesus Cristo, primeiro pendente de um madeiro e agora sentado no Céu. Pendendo no madeiro, pagava o preço de nosso resgate; sentado no Céu, recolhe o que comprou”.1

A morte não sepultou Jesus no esquecimento

De fato, esse júbilo a propósito da Ascensão, que pervade a alma dos santos e se manifesta tão patente no texto do Ofício Divino e na própria Liturgia de hoje, tem sólido fundamento, pois jamais se ouviu dizer de alguém que, ao deixar este mundo, se elevasse aos olhos de centenas de testemunhas e, por seu pró­prio poder, penetrasse nos Céus.

Bem ao contrário, após a morte, nossos corpos gélidos e inertes descem ao seio da terra e, na maioria dos casos, até a nossa lembrança se apaga na mente dos que aqui permanecem. A propósito de Cristo, deu-se exatamente o inverso, pois não só a recordação de seus ensinamentos, de seus atos e até de sua his­tória se prolongou através dos séculos, como também suas tes­temunhas, dotadas de um poder sobre-humano, fizeram ecoar seus relatos em meio aos povos e através das gerações. Para tal, contribuíram os quarenta dias de permanência de Jesus ressur­recto entre os discípulos. A debilidade destes certamente exigia esse poderoso remédio, pois os episódios em torno da Paixão do Senhor abalaram a sensibilidade psicológica e até a própria vir­tude da fé de todos eles.

As perspectivas humanas dos Apóstolos dificultavam sua visão sobrenatural do Messias

As primeiras notícias sobre a Ressurreição encontraram um vácuo de incredulidade em cada um deles, a ponto de Tomé só ter-se convencido ao tocar-Lhe as chagas. Compreende-se a lógi­ca dessas reações, pois, humanos como eram, formados na pers­pectiva de um Messias com fortes traços políticos, acostumados ao longo de três anos a um convívio todo feito de paternal e pe­netrante afeto, só poderiam assim se sentir protegidos, assumidos e transformados. E por isso desejavam perpetuar aque­le relacionamento a partir de onde se havia interrom­pido com aquela morte tão ignominiosa.

Contudo, os véus da carne mortal lhes obum­bravam a real visão da di­vindade do Salvador. Era indispensável substituírem a experiência um tanto hu­mana por outra mais ele­vada, na qual apalpassem, por assim dizer, os reflexos da Alma gloriosa de Jesus sobre seu sagrado Corpo. Para poder cumprir sua missão redentora, Ele ha­via feito um milagre em de­trimento de suas próprias qualidades, rompendo leis por Ele criadas. Desde o primeiro instante de sua concepção, no seio da Virgem Mãe, sua santís­sima Alma gozava da visão beatífica e, em consequência, seu adorável Corpo deveria ter sido glorioso. Se assim fosse, porém, não poderia Ele padecer. Ora, por essa razão, os discípulos aca­baram por se habituar a uma interpretação a respeito do Filho de Deus muito distante daquela que se terá no Céu. Essa situa­ção chegou ao extremo de terem sido os Apóstolos os únicos a comungar o Corpo padecente de Jesus na Eucaristia, distribuída na Santa Ceia.

Por que Jesus conviveu quarenta dias com os Apóstolos, em Corpo glorioso

Por aí se pode compreender o quanto, após a Paixão de Jesus, as saudades dos Apóstolos e discípulos giravam em torno de um relacionamento de certa forma equivocado. Entende-se melhor também a necessidade de o Redentor conviver com eles quarenta dias em Corpo glorioso, pois Jesus “não quis que per­manecessem sempre carnais nem amando-O com amor terreno. Queriam que estivesse sempre com eles, carnalmente, movidos pelo mesmo afeto pelo qual Pedro temia vê-Lo padecer. Consi­deravam-No seu mestre, consolador e protetor, homem, afinal, como eles próprios; e se não vissem algo diferente julgá-Lo-iam ausente, sendo que Ele estava presente em todos os lugares com sua majestade”.2

Por outro lado, em face da lembrança traumatizante dos dias da Paixão, “convinha agora levantar-lhes o ânimo para co­meçarem a pensar n’Ele espiritualmente, como o Verbo do Pai, Deus de Deus, pelo qual todas as coisas foram feitas; esse pen­samento lhes era vedado pela carne que viam. Convinha, sim, confirmá-los na fé, vivendo com eles quarenta dias, mas era ain­da mais conveniente separar-Se de suas vistas para que quem na Terra os estava acompanhando como irmão os socorresse desde o Céu como Senhor, e eles aprendessem a pensar n’Ele como em Deus”.3

“Não vos deixarei órfãos”

O próprio Jesus havia afirmado: “É melhor para vós que Eu vá, pois, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se Eu for, Eu vo-Lo enviarei. […] Eu vou para o Pai, e já não Me vereis” (Jo 16, 7.10). E, de fato, os Apóstolos nunca mais O en­contraram, pois, ao penetrar no Céu, deixou de estar presente na Terra de modo natural.

Em contrapartida, Ele mesmo prometera: “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). E real­mente Ele está entre nós, na Eucaristia, debaixo dos véus das Sagradas Espécies. Ademais, nunca deixa de nos acompanhar: “Subindo aos Céus, Ele não abandona de modo algum aqueles que adotou”.4 Estas belas palavras de São Leão Magno fazem eco às de Nosso Senhor: “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18).

Consola-nos constatar o quanto se tem cumprido essa pro­messa ao longo destes vinte e um séculos, dia após dia, das mais variadas maneiras. Não poderia ser que sua Ascensão constituís­se um abandono daqueles por quem Ele Se encarnou e morreu no Calvário. Seu retorno ao Pai só pode ter-se dado na sequência desse amor incomensurável d’Ele a cada um de nós. A Ascensão deu-se por uma conveniência sua, mas também para benefício nosso. São Tomás nos ensina: “O lugar deve ter proporção com quem nele está. Ora, Cristo, após a Ressurreição, deu início a uma vida imortal e incorruptível, e o lugar em que habitamos é lugar de geração e de corrupção, ao passo que o lugar celeste é um lu­gar de incorrupção. Logo, não era conveniente que Cristo, após a Ressurreição, permanecesse na Terra e, sim, que subisse ao Céu”.5 E ao ocupar um lugar no Céu, proporcionado à sua Ressurreição, “algo se Lhe acrescentou no que diz respeito ao decoro do lugar, o que redunda em bem da glória”.6 E citando o Salmo 15, 11: “À tua destra delícias eternas até o fim”, São Tomás aplica a este versículo o comentário da Glosa: “Terei prazer e alegria quando estiver sen­tado a teu lado, após ter sido tirado da vista humana”.7

II – Benefícios da Ascensão

Também nós fomos beneficiados por incontáveis dons com a Ascensão. Segundo São Leão Magno, passa­mos a conhecer melhor Jesus a partir do momento em que Ele retornou às glórias do Pai. Nossa fé, “mais esclarecida, aprendeu a elevar-se pelo pensamento, sem necessidade do con­tato com a substância corporal de Cristo, na qual Ele é menor que o Pai (cf. Jo 14, 28), dado que, embora permanecendo a mesma substância do corpo glorificado, a fé dos fiéis é convi­dada a tocar, não com a mão terrena, mas com o entendimento espiritual, o Unigênito, igual Àquele que O engendrou. É este o motivo pelo qual o Senhor, após a Ressurreição, disse a Mada­lena — que representava a pessoa da Igreja —, ao aproximar-se para tocá-Lo: ‘Não me toques, pois ainda não subi ao meu Pai’ (Jo 20, 17). Quer dizer, não quero que procures minha presença corporal nem que me reconheças com os sentidos carnais; cha­mo-te para coisas mais elevadas, destino-te a bens superiores. Quando subir a meu Pai, Me tocarás de forma mais real e ver­dadeira, tocando no que não apalpas e crendo no que não vês”.8

Fortalecimento da fé

Demonstra-nos São Tomás de Aquino que, privando-nos de sua presença corporal, ao penetrar na glória eterna, Jesus Cristo tornou-Se ainda mais útil para nossa vida espiritual.

Primeiro, “para aumento da fé, que é sobre o que não se vê. Por isso, o próprio Senhor diz no Evangelho de João que o Espírito Santo, ao vir, ‘arguirá o mundo a respeito da justiça’, ou seja, da justiça ‘dos que creem’, como diz Santo Agostinho: ‘A própria comparação dos fiéis com os infiéis é uma censura’. Por isso, acrescenta: ‘Porque Eu vou para o Pai e não Me vereis mais, pois são bem-aventurados os que não veem e creem. Será nossa a justiça, de que o mundo será arguido, porque credes em Mim, a quem não vedes’”.9

A esse propósito, São Gregório Magno externa sua con­vicção: “Com sua facilidade em crer, Maria Madalena nos apro­veita menos do que Tomé duvidando por muito tempo, porque este, em meio a suas dúvidas, exigiu tocar as cicatrizes dessas chagas, e com isso nos tirou todo pretexto para vacilação”.10

Aumento da esperança

Em segundo lugar, “para reerguer a esperança”, pois, “pe­lo fato de Cristo ter elevado ao Céu sua natureza humana assu­mida, deu-nos a esperança de lá chegarmos, porque ‘onde quer que esteja o corpo, ali se reunirão as águias’, como diz Mateus. Por isso, diz também o livro de Miqueias: ‘Já subiu, diante deles, Aquele que abre o caminho’”.11

Abrasamento da caridade

Uma terceira razão, ainda segundo São Tomás, torna a As­censão mais benéfica a nós do que a própria presença física de Nosso Senhor, e esta se refere à caridade. Na sequência dessa mesma questão da Suma, o Doutor Angélico, a fim de nos mos­trar as vantagens para essa virtude, cita São Paulo: “Por isso, diz o Apóstolo: ‘Procurai o que está no alto, lá onde se encontra Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas de cima, não às da Terra’, pois, como foi dito, ‘onde estiver o teu tesouro, ali também estará o teu coração’”.12 E, após discorrer sobre o amor enquanto propriedade do Espírito Santo e a respeito da grande necessidade que dele tinham os Apóstolos, termina com esta citação de Santo Agostinho: “Não podeis receber o Espírito enquanto persistirdes em conhecer a Cristo segundo a carne. […] Pois quando Cristo Se afastou corporalmente, não só o Espírito Santo, mas também o Pai e o Filho estavam espiritualmente em presença deles”.13

III – A narração de São Lucas

Ser-nos-á mais fácil, depois das antecedentes conside­rações, analisarmos o próprio texto do Evangelho de hoje.

Onipotência e sabedoria de Deus na condução da História

46 “Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia…”

Estas palavras do Divino Redentor, antes de subir aos Céus, não foram dirigidas somente aos Apóstolos, mas a todos os chamados por Ele a realizar alguma missão junto às almas. São palavras que têm uma certa ordem e concatenação, e assim devem ser entendidas.

Mais uma vez, transparecem na Escritura Sagrada a oni­potência e a suma sabedoria de Deus na condução da História. Aconteceu porque estava escrito e, por sua vez, foi previsto e anunciado porque assim deveria se passar, por uma determina­ção perfeitíssima e suprema de Deus. Este versículo nos convida a um momento de meditação e admiração.

Contemplemos os excelsos desígnios do Ser Supremo que a tudo regula de maneira insuperável, aproveitando-Se para sua glória, não só da virtude dos bons, mas até mesmo do concurso da malícia e ódio dos maus, da enferma vontade dos tíbios, da volubilidade dos indecisos, da voluptuosidade dos passionais, da cegueira dos orgulhosos, do delírio incontenível dos tiranos. Na­da deixa de contribuir para sua honra, louvor e glória; de tudo tira proveito com tal equilíbrio que nunca produz o menor pre­juízo ao livre-arbítrio de uns e de outros.

Adoremos a Providência Divina e a Ela apresentemos nos­sa gratidão, como também nossa reparação por todas as ofen­sas que a cada instante sobem ao seu trono. Assim, seremos do número dos bons e Deus se servirá de nossa disposição de alma e de nossas ações para sua maior glória. E peçamos a Ele, por intercessão de sua Mãe Santíssima, jamais pertencermos ao par­tido dos maus, os quais têm como objetivo de suas existências o disputar com Deus o seu poder. De que lhes vale atribuírem-se a si próprios capacidades inexistentes, ou mesmo reais, se estas absolutamente não lhes pertencem, pois lhes foram conferidas pelo Ser que visam destronar? E qual o proveito que tiram ao darem largas às suas paixões e maus instintos para perseguir a virtude e quem a pratica?

Foi tão estúpida e contraproducente a atuação dos demô­nios e dos maus judeus em todo o drama da Paixão, que se com anterioridade tivessem conhecido seus efeitos — ou seja, a obra da Redenção —, jamais teriam desejado ou contribuído para sua realização.

De todas essas ações e situações, Deus saberá extrair os elementos para sua glória. Mas, o destino de uns será a felicida­de do Céu e o dos outros, o suplício eterno.

Metanoia: essência da conversão

47 “…e que em seu nome havia de ser pregado o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Je­rusalém”.

Antes de subir aos Céus, o Redentor não lhes dá nenhu­ma recomendação política e muito menos insinua algo na linha de uma reconquista do poder de Israel. Pelo contrário, suas palavras visam uma atuação estritamente moral, religiosa e penitencial em nome de Deus.

Essa conversão, a qual na sua essência é a mudança de mentalidade, metanoia, já havia sido intensamente esti­mulada pelo Precursor. João Batista se apresentara como a voz que clama no deserto, a fim de que todos endireitassem os caminhos para a chegada do Senhor. Esse é também o legado do Redentor aos seus, antes da Ascensão. A substitui­ção dos critérios equivocados pelos verdadeiros é indispen­sável para a real conversão. Saulo, em um só instante a rea­lizou, logo ao “cair do cavalo”, e assim mesmo passou por um retiro de três anos no deserto para torná-la irreversível, co­mo também profunda e eficaz. Comumente, ela se faz de ma­neira lenta, após os fulgores de um primeiro como que flash, mediante o qual, pela graça do Espírito Santo, a alma se dá conta das belezas das vias so­brenaturais e por elas resolve trilhar com decidida firmeza. Sem essa conversão, é-nos praticamente inútil o Mistério da Redenção e de nada nos adianta o Evangelho. De forma explí­cita ou implícita — dada nossa natureza racional — a atuação de nossa inteligência e vontade se faz com base em princípios e máximas que norteiam as potências de nossa alma. É sobre essa fonte que se concentra o esforço da conversão. Em síntese, tra­ta-se de substituir o amor-próprio, o qual se manifesta no apego às criaturas, pelo amor a Deus.

É de dentro da visualização perfeita a respeito da retidão da prática da Lei de Deus e de sua santidade que brota o eficaz pedido de perdão dos pecados. É nesse contraste que o peniten­te tem plena consciência da grande misericórdia anunciada por Jesus, antes de sua partida para os Céus. Nem os anjos revolto­sos e nem os homens que morreram em pecado receberam essa dádiva incomensurável. E, nesse momento, ela nos foi oferecida pelo próprio Filho de Deus.

Iniciando-se em Jerusalém, do Sagrado Costado de Cristo nasce a Igreja a pregar ali, e depois pelo mundo afora, a Boa-no­va do Evangelho. Assim havia profetizado o Antigo Testamento, assim ordenou naquela ocasião o próprio Jesus Cristo.

O testemunho dos Apóstolos robustece nossa fé

48 “Vós sois as testemunhas destas coisas”.

Sim. Nossa fé se robustece pela comprovação ocular dos Apóstolos, dos setenta e dois discípulos e de muitos outros aos quais se fez ver o Salvador depois da Ressurreição. Que vanta­gens humanas, temporais ou eternas, teriam eles em selar com o próprio sangue fatos que constituem escárnio para seus conacio­nais e loucura para os gentios? Eis um argumento irrefutável a favor da objetividade dos relatos feitos por eles.

Papel da espera, até à vinda do Espírito Santo

49 “Eu vou mandar sobre vós o Prometido por meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do Alto”.

Trata-se da Terceira Pessoa da Trindade, que Jesus en­viaria, segundo a promessa feita pelo Pai, ou seja, “a força do Alto”. É o Espírito Santo, que procede do amor entre o Pai e o Filho, que descerá sobre eles, a fim de serem n’Ele submersos, penetrados e revestidos por Ele, para, assim transformados, rea­lizarem sua missão de testemunhas. Os Apóstolos “serão prepa­rados com a grande força renovadora e fortalecedora de Pente­costes. Receberão o Espírito Santo, de cujo envio tanto falou o Evangelista João nos discursos da Última Ceia”.14

A ordem de não saírem de Jerusalém sob qualquer pretex­to tinha por objetivo a espera de Pentecostes para começarem a pregar. Entenderam eles que, esse período, deveriam passá-lo em recolhimento, pois é nessas circunstâncias que mais profun­damente Ele age.

São João Crisóstomo comenta a esse propósito: “Para não se poder dizer que tinha abandonado os seus para ir manifestar­-Se — mais ainda, ostentar-Se — aos estranhos, ordenou-lhes Jesus apresentar as provas de sua Ressurreição primeiramente àqueles mesmos que O tinham matado, na cidade onde foi co­metido o temerário atentado, pois, se os que haviam crucificado o Senhor davam mostras de crer, ter-se-ia uma grande prova da Ressurreição”.15

Por outro lado, continua São João Crisóstomo: “Assim co­mo, num exército que se alinha para atacar o inimigo, o general não permite a ninguém sair antes de estarem todos preparados, da mesma forma Jesus não permite a seus Apóstolos saírem a pelejar enquanto não estejam preparados pela vinda do Espírito Santo”.16

E por qual razão o Espírito Santo não desceu sobre os Apóstolos, de imediato? “Convinha que nossa natureza se apre­sentasse no Céu e fossem realizadas as alianças, e depois então viesse o Espírito Santo e se celebrassem os eternos júbilos”,17 opina Teofilato.

A última bênção de Jesus se estende até nós

50 Depois levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os.

“O ato de levantar as mãos e os abençoar significa que quem abençoa deve estar ornado de boas e heroicas obras em benefício dos demais; por isso levantou as mãos ao céu”,18 co­menta Orígenes.

Jesus procede como os sacerdotes da Antiga Lei, nesse gesto de abençoá-los. O sacerdócio de Cristo tem seu início no próprio momento da Encarnação (cf. Hb 10, 5-10), mas, se bem tenha tido princípio, jamais terminará, pois é Ele sacerdote in æternum. A dignidade, ação, virtude e frutos sacerdotais do sa­crifício de Cristo estarão diante do Pai eternamente. Por isso, neste momento, sua bênção se estende também sobre nós. Sai­bamos aproveitá-la, ao contemplar esse último adeus externado por Jesus no alto do Monte das Oliveiras.

Jesus nos preparou o caminho para subirmos ao Céu

51 E enquanto os abençoava, separou-Se deles e era levado para o Céu.

Grandiosa cena e acontecimento inédito. Elias também subia, mas arrebatado num carro de fogo e não pelas próprias forças. Cristo, pelo contrário, “subiu ao Céu pelo seu próprio poder; primeiro pelo poder divino; segundo, pelo poder da Al­ma glorificada que movia o Corpo como queria”.19 Os Apósto­los e discípulos já O haviam visto andar sobre as águas, entrar no Cenáculo a portas fechadas, escapar em meio à multidão, mas elevar-Se ao Céu ainda não. Eles não ignoravam para on­de partia Nosso Senhor, já haviam ouvido dos lábios do próprio Mestre qual seria seu destino. E com os Apóstolos devemos crer que, por sua Ascensão, Jesus “preparou-nos o caminho para subirmos ao Céu, de acordo com o que Ele mesmo disse: ‘Irei preparar-vos um lugar’, e com as palavras do livro de Miqueias: ‘Subiu, diante deles, Aquele que abre o caminho’. E porque Ele é a nossa cabeça, mister se faz que os membros vão para onde ela se dirigiu. Por isso diz o Evangelho de São João: ‘De tal sorte que lá onde Eu estiver também vós estejais’”.20

Onde se encontra a verdadeira fonte da alegria

52 Eles, depois de O adorarem, voltaram para Jerusalém com gran­de alegria.

Esse gesto de prosternarem-se diante de Jesus em sua Ascen­são significa um reconhecimento pleno de sua majestade. Pedro já assim procedera por ocasião da pesca milagrosa (cf. Lc 5, 8ss).

Do Monte das Oliveiras a Jerusalém, caminha-se apenas a distância de uma viagem em dia de sábado. Esse percurso foi rea­lizado pelos Apóstolos, em “grande alegria”, e se compreende.

Esse mesmo júbilo os acompanhará ao saírem dos tribunais, nos quais haviam sido condenados por pregar o nome de Jesus. Assim aprendem os Apóstolos — e nos ensinam — onde estão as verdadeiras fontes de alegria: no cumprimento da vontade de Deus que, às vezes, se faz através do curto caminho da cruz.

Ligação entre o Antigo e o Novo Testamento

53 E estavam continuamente no Templo louvando a Deus.

Tal qual inicia seu Evangelho com os ofícios de Zacarias no Templo, termina São Lucas aludindo à frequência assídua dos Apóstolos em todos os atos do culto praticado na Antiga Lei. A Santa Igreja não se separou da Sinagoga de forma abrupta e vio­lenta. O Templo estava intimamente ligado à vida de Jesus, e os que iam receber o Espírito Santo, com humildade, veneração e piedade, se preparavam indo rezar na casa de oração, da qual o Mestre havia expulsado os vendilhões por duas vezes. Eles con­sideravam o Templo com uma perspectiva muito diferente da de seus conacionais. O mirante dos Apóstolos era um dos legados do Filho de Deus, ou seja, o próprio olhar d’Ele.

Maria vivia em constante oração

Uma palavra sobre Maria. Certamente intercedeu Ela jun­to a Deus para inspirá-los a permanecerem em oração no Cená­culo. N’Ela, a altura de sua humildade era a mesma da de sua fé, virginalidade e grandeza. Ela estava rezando ao pé da Cruz, no Calvário; agora A encontramos em profundo recolhimento. De­pois da descida do Espírito Santo, a Escritura não mais A men­cionará e, provavelmente, o resto de seus anos, Ela os viveu em intensa oração, constituindo-Se no insuperável modelo da mu­lher cristã.

Que Ela nos obtenha todas as graças para seguirmos suas vias e virtudes.

 

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1) SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXIII, n.1. In: Obras. Madrid: BAC, 2005, v.XXIV, p.750.

2) SANTO AGOSTINHO. Sermo CCLXIV, n.2. In: Obras, op. cit., p.760.

3) Idem, ibidem.

4) SÃO LEÃO MAGNO. De Ressurrectione Domini. Sermo II, hom.59 [LXXII], n.3. In: Sermons. Paris: Du Cerf, 1961, v.III, p.131.

5) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.57, a.1.

6) Idem, ad 2.

7) GLOSA apud, SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., ad 1.

8) SÃO LEÃO MAGNO. De Ascensione Domini. Sermo II, hom.61 [LXXIV], n.4. In: Sermons, op. cit., p.141-142.  

9) SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., ad 3.

10) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homiliæ in Evangelia. L.II, hom.9 [XXIX], n.1. In: Obras. Madrid: BAC, 1958, p.677.

11) SÃO TOMÁS DE AQUINO, op. cit., ad 3.

12) Idem, ad 1.

13) SANTO AGOSTINHO. In Ioannis Evangelium. Tractatus XCIV, n.4-5. In: Obras. Madrid: BAC, 1957, v.XIV, p.508; 510.

14) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.934.

15) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, c.XXIV, v.45-49.

16) Idem, ibidem.

17) TEOFILATO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit.

18) ORÍGENES, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea, op. cit., v.50-53.

19) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.57, a.3.

20) Idem, a.6.

FONTE: ARAUTOS DO EVANGELHO PORTUGAL