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Jesus Cristo, o alvo favorito das ‘fake news’ na história

Jesus Cristo, o alvo favorito das ‘fake news’ na história

Livro ‘Cogumelo Jesus e Outras Teorias Bizarras sobre Cristo’ analisa os boatos atrelados ao messias cristão

Por Maria Clara Vieira

Quadro 'Cristo Abençoador' (1834), de Jean-Auguste Dominique Ingres  (Masp/Reprodução)

Está no Evangelho de Marcos, capítulo 8. A caminho do povoado de Cesareia, Jesus pergunta aos apóstolos: “Quem dizem os homens que eu sou?”. As respostas refletem os boatos da época: “Alguns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou algum outro dos profetas”. Uma infinidade de histórias sem fundamento continuou pipocando nestes dois milênios desde a passagem do Nazareno pela Terra — apimentadas pela circunstância de que há pouca evidência sobre a própria passagem, que dirá sobre os detalhes dela. Algumas das hipóteses mais repetidas, curiosas ou abertamente estapafúrdias estão reunidas — e devidamente desmontadas — no livro Cogumelo Jesus e Outras Teorias Bizarras sobre Cristo, do escritor Paulo Schmidt (Editora Harper Collins). “Pode-se dizer que Cristo foi, e continua sendo, uma das maiores vítimas de fake news da história”, compara Schmidt.

O escritor vê paralelos na forma como os boatos sobre Jesus foram criados e se espalharam e o modo como hoje funciona a fábrica de notícias falsas da internet. “A fórmula é a mesma, de misturar informação falsa com uma ou outra verdadeira, mas tirada do contexto, e assim passar a impressão de que o conjunto faz sentido”, explica. A obra trata de teorias bem conhecidas, como a de que Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram filhos, e outras menos, como a de que o pai terreno do filho de Deus seria um centurião romano. Das teses que reuniu, a mais sem pé nem cabeça, segundo o autor, é a que dá título ao livro: a de que Jesus não existiu e seria fruto de uma viagem alucinógena dos apóstolos sob o efeito de um cogumelo. A história, cheia de incongruências e malabarismos morfológicos, partiu de um cientista respeitado que depois dela, claro, deixou de sê-lo.

Schmidt enxerga na invenção de histórias sobre Jesus dois motivos principais. Um é o de desmerecer as crenças cristãs investindo contra a reputação dele. O outro é ganhar dinheiro — vide o Código Da Vinci, delirante ficção sobre Cristo, Madalena e sua descendência, que rendeu filme e muitos milhões a seu autor, Dan Brown. As fantasias causam impacto e persistem na memória coletiva porque, de certa forma, aproximam o sacrossanto do homem comum. “Para quase todo o mundo ocidental, o nome de Jesus é sagrado, e sagrado é sinônimo de poder. Queremos que o sagrado caiba em nós mesmos, para que possamos parecer com ele, de alguma forma”, diz o filósofo Luiz Felipe Pondé. “Jesus já passou por tantas adequações a contextos e visões de mundo que não vou me espantar se, daqui a pouco, ele virar um algoritmo”, brinca.

Engrossa consideravelmente o caldo da boataria a falta de documentação original da vida e dos feitos de Cristo. “Temos pouquíssimas certezas sobre o que Jesus realmente disse e fez”, aponta o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembrando que só no século XIX surgiram os primeiros estudos totalmente desvinculados do viés teológico. A prova científica de que Jesus de fato existiu foi constatada por vias indiretas, a chamada múltipla atestação — quando dois ou mais autores que nunca tiveram contato algum entre si descrevem fatos sobre um terceiro, atribuindo-lhe até frases inteiras e quase idênticas. “A ausência de documentação não impediu que as pessoas acreditassem em Cristo. O próprio Sócrates nunca escreveu coisa nenhuma e ninguém deixou de considerá-lo um grande filósofo”, argumenta Chevitarese.

Fonte: Veja.com